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Além dos Palcos: o segundo ofício de grandes músicos brasileiros

Blog | 19/09/2016

“Ontem eu peguei um Uber com um cara que tocou 15 anos com o Jorge Ben Jor, ele disse que não soube administrar a parada como um todo, e hoje é decepcionado com a carreira de artista”. O depoimento é de Alexandre Nickel, baixista da Tópaz, que além da banda, trabalha em outras duas empresas, com marketing digital e produção audiovisual.

Não é novidade para ninguém que o cenário musical, principalmente o brasileiro, é uma caixinha de surpresas, e que algumas delas não são tão boas. Em janeiro de 2015 escrevi sobre como músicos de grandes bandas também trampam em outros empregos — mas com foco na cena underground de SP. Foi um estardalhaço. Muitos não imaginavam que o Rodrigo Lima (Dead Fish), por exemplo, trabalhava num escritório de advocacia, das 9h às 17h, diariamente. Ou que o Zumbilly, batera do Zumbis do Espaço, se desdobra entre a estrada e o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo.

Desta vez, resolvi transcender as barreiras de SP e falei com uma galera que movimenta o rock por outros cantos do país. E adivinhe: as coisas não são diferentes. Seja no Sergipe, no Rio de Janeiro, em Minas Gerais ou no Rio Grande do Sul, os objetivos são sempre os mesmos, só mudam os corres e os personagens. Venha entender do que estou falando…

Que a Tópaz é uma das principais representantes sulistas do rock, todo mundo sabe. Fora dela, Alexandre Nickel é proprietário do Império Girafa, uma empresa de marketing digital focada em economia criativa. A empresa atende alguns artistas como Sandy e Chimarruts. Formado em cinema, Nickel também é produtor audiovisual, e dessa forma administra a Swickel — que é especializada em planejamento, criação e disseminação de conteúdo online.

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Sem essas duas ocupações em seu dia a dia, conseguiria viver só da banda? Perguntei. Sim, ele responde, mas com algumas condições. Rolaria com uma agenda de shows frenética, além de ações de merchandising e publicidade. Nickel mesmo afirma: é muito HARD para isso acontecer, entretanto, seria possível. Tanto é que o fez durante muito tempo, antes da criação de suas empresas. “Como a Tópaz iniciou um hiato devido ao acidente do Cris [Möller], e em paralelo sempre tive isso como reforço de renda, resolvi levar essas funções um pouco mais a sério agora, até para ter mais segurança de vida mesmo”, conta.

Nickel detalha que, alguns dias antes do acidente do Cris, a banda havia LOTADO o Bar Opinião, e que ainda restavam umas 15 datas para cumprir em turnê; Após um ano e meio de hiato, rolou uma intensa procura de contratantes, mas o grupo [então com Toledo como vocalista], decidiu se conter. Uma porque o Toledo também toca na Supercombo, que excursiona o país em turnê do novo álbum. Duas porque a Tópaz aproveita a pausa para preparar um disco com mais calma. Fato é que, “por conta de tudo isso, se financeiramente eu dependesse somente da banda, HOJE eu estaria fudido”. (É importante salientar que o Cris continua se recuperando, e bem ❤).

Em meio a todo esse rolê, é comum ver bandas desistindo. A essas, Nickel aconselha de forma pragmática: “se tu gosta de fazer música, você pode tocar por uma vida inteira, independente de retorno financeiro”. Em sua visão, a arte propriamente dita representa 30% de produto e carreira, que por sua vez resultam em receita; já os outros 70% estão no ‘saber administrar tudo’. 

“Saber gerir o que você faz como se fosse uma empresa, expertise em marketing, tudo isso conta. Ao mesmo tempo eu entendo bandas que correm atrás durante dez ou 15 anos e não conseguem viver disso. Ontem eu peguei um Uber com um cara que tocou 15 anos com o Jorge Ben Jor, ele disse que não soube administrar a parada como um todo, e hoje é decepcionado com a carreira de artista”.

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Mas e se sua banda vai bem, mesmo assim você se ocuparia com outras atividades?

Bom, você deve imaginar que sucesso e independência financeira são sinônimos de ser convidado para tocar nos maiores festivais do mundo e fazer turnê internacional. Pode até ser, em partes. Porque aconteceu com o The Baggios, mas o trio de Sergipe continua ligada no 220, trampando muito. Inclusive, vem disco novo por aí.

O guitarrista e vocalista, Júlio Andrade, endossa o número de milhões de freelancers brasileiros. De forma independente, Júlio é designer gráfico, editor e diretor de vídeos. Felizmente, boa parte dos seus trampos são direcionados à sua banda, mas nem sempre foi assim. A maioria (para não dizer todas) das artes de divulgação e dos vídeos postados no canal dos Baggios, por exemplo, é Julio quem faz — DIY (faça você mesmo) puro, rapaz. Para ele, isso parte da necessidade que uma banda tem de se autopromover, somada a de economizar.

Desde 2006 ele busca aprendizado por meio dos bons e velhos tutorais na internet. “Mal existia celular com câmeras, todo mundo fazia clipes, então fui buscar meios de aprender a fazer os meus, embora a internet na época não ajudasse muito”, lembra. “No início eu fui criando pelo Movie Maker mesmo, depois encontrei o Sony Vegas, e hoje em dia trabalho com Adobe Premiere”.

Júlio conta que entre 2009 e 2013, muitos cartazes de shows em Aracaju provieram de sua criatividade. De lá pra cá, suas atividades se voltaram mais para a própria banda. “Todas as capas de discos que lançamos, até hoje, tiveram uma colaboração minha, seja em tratamento ou em diagramação”. E se esse ofício se faz menos presente hoje, é devido à fase de pré-lançamento do 3º disco dos Baggios, Brutown. Mesmo assim, o cabra afirma que gosta muito (mesmo) de trabalhar com isso fora dos palcos, e que não vai parar. “A gente está… digamos que bem. Mas como profissional a gente sempre quer crescer, né? Então trabalho cada vez mais, para ter um retorno melhor”.

Quer saber de uma coisa importante? Saca só. Para o Júlio, as coisas numa banda devem acontecer de forma orgânica, sem expectativa de chegar ao (tal do) mainstream, porque talvez o mainstream é o que está ao seu alcance no presente. Aí, o mais importante passa a ser o respeito do público, que por sua vez dá sentido ao que a banda faz. Se for assim, no final das contas elas estarão todas quitadas.

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O Zander, você deve saber, é uma banda fudida que vem cativando um público cada vez maior Brasil afora (se você tem dúvidas, basta ouvir o recém-lançado Flamboyant). Seu baterista, Bruno Bade, é formado em Arquitetura e Urbanismo, e atualmente faz home office em projetos e modelagem 3D. Antes disso, trabalhou em escritórios, acompanhou obras e reformas, e prestou serviços a uma ‘grande construtora que trabalha com um sistema corporativo totalmente quadrado’. Pois bem…

O caso de Bruno é meio que o inverso do que vimos até aqui. Na verdade, vive do home office, quando a grana que advém da banda é um extra. Sem sua ocupação individual, afirma ser impossível se manter. “Não conseguiríamos pagar nossas contas se dependêssemos apenas da música. Nossa renda dentro da banda é praticamente gerada por eventos, e varia muito com os cachês acordados e quantidade de shows no mês. Fora que, boa parte da renda é utilizada para pagar ensaio, compra e reforma de equipamento, material de gravação, divulgação, clipes, etc.”.

E falando em cachês, pergunto se os valores oferecidos pelos contratantes e casas de shows tem sido justos para bandas do porte da Zander. Bruno diz que depende. A maioria das casas tem trabalhado com ‘esquema de bilheteria’, onde uma porcentagem do valor arrecadado fica para a casa, e outra [óbvio]… para os(as) promoters. Ah, e um outro tanto para a banda. Nesse caso, o batera explica que a quantidade de pagantes faz muita diferença no final. A essa altura, entender a importância de comprar ingresso e comparecer em shows fica por sua conta. “Somente em alguns lugares rola a oportunidade de tocar com cachê fechado, e isso varia do produtor envolvido”, finaliza.

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Já para Antônio Júlio, guitarrista da banda mineira Tianastácia, o dilema é outro. O lance é saber administrar o excesso de trabalho, e não a falta ou desvalorização de. Antônio é formado em medicina desde 1995, se especializou em dermatologia, e desde então administra o tempo entre palcos, a família e o consultório.

Supus que se não fosse músico, Antônio conseguiria manter sua família com o que ganha exercendo a medicina. Pergunto, então, porque se dispor à desgastante rotina da estradas e de turnês. Ele é rápido: “Porque eu amo”. E continua: “concordo que a vida na estrada é muito pesada, mas não me vejo fora dela. É meu sonho de infância. Sempre que estou no palco, agradeço a Deus por poder viver meu sonho”. Ele ainda conta que se sente abençoado duas vezes, pois se tornar médico era sonho de infância também.

Mas afinal, como ele consegue? “Simples”. Antônio conta como é sua rotina. “Acordo 5h30 da manhã, trabalho de segunda à quinta das 7h30 às 15h como dermatologista, saio do consultório, faço 30 minutos de musculação e uma hora e meia de Jiu Jitsu (o cara é faixa roxa), por fim vou para casa e brinco com minhas duas filhas, e 19h estou na cama para dormir. Sexta, sábado e domingo estou na estrada com o Tianastácia”. Sussa, né?

Pergunto o que alguém pode fazer se deseja investir no sonho de viver da música, mas não tem tempo devido ao emprego. Ele responde: “Que tal colocar a rotina no papel? É mais fácil achar brechas de tempo lendo do que pensando. Não perder tempo com o que não lhe interessa. Com isso, seu tempo é seu mais novo e valioso bem. Não abra mão de atividade física! Uma boa noite de sono e uma alimentação saudável fazem a diferença. Uma bobagem de vez em quando não faz mal, o problema são as bobagens o tempo todo. Não é fácil, reconheço, mas também não é impossível”.

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O último a falar comigo é baixista da Pitty. Além da baiana, Guilherme Almeida também toca com o Martin, Guri Assis Brasil, La Cumbia Negra e a Pública, que em breve deve lançar disco novo. Mas o Gui atua em dois universos: além do musical, o gastronômico. Ele é co-founder da Helpie Tortas, ao lado de outros três sócios. O cara é, simplesmente, responsável pela criação dos sabores da marca, além de tocar a comunicação e o marketing da empresa. A Helpie trabalha com tortas congeladas, artesanais, feitas no interior de SP. Os peculiares ingredientes de suas receitas provém de micro produtores sustentáveis espalhados pelo Estado.

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No seu caso, a Helpie lhe rende apenas um extrinha. “Na verdade, ainda é uma super aposta. Se manter hoje em dia tá difícil em todas áreas e aspectos. Mas espero que no futuro ela dê sim uma estabilidade maior do que a música, que infelizmente anda de pernas bambas no Brasil”.

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Além do financeiro, o lance do tempo também pega para o Gui. Ele tem dois filhos pequenos em Porto Alegre. “É complicado, tenho que me dividir entre lá e cá. Vim para SP com foco profissional, mas é bem difícil ficar longe deles. Telefone, internet e essas coisas não são o suficiente, principalmente para eles. Sou muito agradecido pelo suporte familiar que tenho, então sempre que sobra um espacinho, no final ou no meio da semana, tento estar lá no sul, perto deles”.

Como vimos, existem altos e baixos em toda e qualquer carreira, seja artística ou não. Parafraseando o Iggor Cavalera, cabe a nós decidirmos melhor o destino daqueles R$10,00 que estão de bobeira na carteira. Você prefere tomar um café hipster ou comprar um disco?

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Sobre o autor:

Vinícius Franco é jornalista, produtor e músico do Biblioteca da Memória.
Siga no Instagram: @francamentevini
Siga no Twitter: @francamentevini

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